desisti de acreditar na infância
não creio
nesse tempo de respeito, afeto, tolerância
não dá mais pra botar fé na existência dessa época bordada de ouro.
desse tal momento em que o humano é mais humano
é mais qualquer coisa desse jeito doce e mais doce
e até bobo, porque só esse tempo - dizem - pode ser doce.
não falo isso da boca pra fora, de qualquer jeito
nem achando que ser criança é ruim ou pouco
eu falo porque ontem vi uma mulher de 75 anos correr solta na rua de pés descalços
eu falo porque namoro um homem de 26 anos que me faz rever um monte de brinquedos
eu falo porque vi uma pequena de dois anos chorar por causa da solidão
e dá pra falar de tanta gente que não é nada disso que dizem não
desisti de acreditar na infância
porque também não acredito no adulto
tampouco no velho, no adolescente ou em qualquer outro protocolável
entretanto, continuo a crer no crescer
e não nele como uma busca de um pote de ouro cheio de realizações e propósitos e vida feliz
agora sim, como uma construção bem palpável, bem mutável-fixa e cheia de corpo.
crescer não é achar que quando pequeno eu era mais ingênuo, mais feliz
crescer talvez seja perceber que esse corpo que cresce é sempre novo e velho.
então,
sempre capto uma ingenuidade de tantas formas do mundo
sempre recebo uma felicidade pela descoberta de uma outra dor e outra consolação
sempre sou bobo por não saber viver como gente grande
ser criança adulto velho ou que for
parece só servir pro outro
o outro que não me vê de verdade
não me vê como parte das partes
e sim o outro que me vê como mais um do todo
outro velho como eu
outro adulto trabalhante
outra criança em seus melhores anos de vida
desisti de acreditar na infância
creio mais na reconstrução
Meu Deus! Uau! Tô sei lá, sem palavras. Pra mim isso clareia tudo: "crescer talvez seja perceber que esse corpo que cresce é sempre novo e velho."
ResponderExcluirCrescer ou amadurecer talvez seja mesmo o processo de perceber as coisas. Constatá-las, aceitá-las, e deixá-las seguir o seu curso. Sei lá. Tô meio chocada ainda com o seu poema, Carlos. Queria postar na minha timeline do facebook e chamar de meu. Maravilhoso!